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“No momento”

Três países em cinco cenas

Faith Liddell

 

PAÍS No 1 – Vamos chamá-lo de Sperantia

Sperantia, Cena 1

Uma sala em Edimburgo em agosto de 2011, uma das poucas que não foram transformadas em teatro na “cidade dos festivais”, que se vangloria de ter 300 espaços culturais temporários como parte do Edinburgh Festival Fringe [N. do T.: Festival Alternativo de Artes de Edimburgo], o maior festival de arte de livre acesso do mundo. Ao redor da mesa, em cautelosa comunhão, estão os representantes das principais companhias de artes cênicas de um país com um histórico de divisão interna; com eles, o chefe da agência governamental das artes do país, um carismático poeta e líder político e cultural, e um importante produtor de locais de espetáculos do Edinburgh Festival Fringe, com o entusiasmado compromisso de apresentar obras vindas de Sperantia. A reunião é promovida por meu colega, o paciente, mas persistente e decidido diretor de projetos internacionais da Festivals Edinburgh — a instituição que eu dirijo e que, com o apoio do British Council, o organismo de relações culturais internacionais do Reino Unido, e da Creative Scotland, o conselho nacional de artes das Escócia, reuniu essas pessoas. A Festivals Edinburgh e seus festivais integrantes têm seu próprio programa para ampliar, aprofundar e explorar o já forte caráter internacional dos 12 grandes festivais da cidade, para reafirmar o valor da cultura em conjunto com o esporte, na época dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 e dos Jogos da Comunidade Britânica de Nações de 2014, em Glasgow. Poucos desses notáveis e criativos representantes de Sperantia — alguns com uma poderosa trajetória pessoal de luta política — haviam alguma vez se reunido ao redor de uma mesa ou em torno de uma iniciativa comum, mesmo os que vinham das mesmas cidades. Estamos sensibilizados. Parece que é algo importante e que vai além dos limites da sala, da cidade. Uma conversa decisiva tem início.

Sperantia, Cena 2

Um ano depois, 2012. Após um ano de negociações complexas e às vezes dolorosas e de uma visita a Sperantia que envolveu tanto a programação criativa quanto uma intensa pressão política, uma grande temporada de obras de Sperantia é apresentada em uma das redes de espaços de espetáculos mais prestigiosa do Edinburgh Festival Fringe e do Edinburgh International Book Festival [N. do T.: Festival Internacional do Livro de Edimburgo], com apoio do conselho das artes de seu governo. Basicamente, o processo foi também promovido pelo líder de uma das companhias nacionais de Sperantia, pelo carismático poeta e também pelo alto-comissário em Londres. Em um ambiente altamente competitivo, com mais de três mil espetáculos e eventos em cinco festivais simultâneos, os artistas consideram a experiência estimulante e os espetáculos recebem um público variável, mas críticas extremamente positivas. Um dos espetáculos ganha um prêmio importante e é amplamente considerado a obra mais importante do Fringe naquele ano. É transformado em uma produção internacional itinerante pelo produtor de espaços de espetáculos cuja reputação de criar programações teatrais de qualidade aumentou após seu compromisso com essa audaciosa gama de obras, assim como a reputação do Edinburgh Festival Fringe. O ministro das Artes de Sperantia assiste à temporada, se reúne com nosso ministro da Cultura e Assuntos Exteriores e a Festivals Edinburgh inicia um diálogo muito construtivo a respeito de projetar e ampliar as aspirações criativas do país ao longo de três anos em nossos 12 festivais. Isso deveria culminar numa programação que destacasse e celebrasse suas riquezas culturais em 2014, ano em que a Escócia receberia os Jogos da Comunidade Britânica de Nações em Glasgow e em que Sperantia comemoraria um momento notável de seu nascimento como nação. Como consequência de nossas aspirações conjuntas, o British Council e a Creative Scotland criam uma parceria para promover um intercâmbio mais amplo com Sperantia, criando um providencial senso de que estaria sendo construída uma relação de longo prazo entre os setores culturais de Sperantia e da Escócia, que haviam começado a se reunir e a estabelecer vínculos durante nossos festivais.

Sperantia, Cena 3

Dois anos depois, dois ministros da cultura de Sperantia passaram. 2013. Outra sala em Edimburgo — desta vez, em um restaurante —, com uma delegação de Sperantia completamente nova. O Edinburgh Festival Fringe tem uma potente terceira temporada de obras de artistas de Sperantia, mas a decisiva intenção de chegar a outros festivais não se concretizou; tampouco se concretizou o potencial de construir parcerias culturais mais amplas no lado de Sperantia. Estou conversando amigavelmente com o novo ministro, sua equipe, o ex-diplomata que está comandando as celebrações da importante data em seu país e outro carismático artista politizado — desta vez um cantor clássico. Conversamos sobre as experiências que as pessoas ao redor da mesa tiveram sob o regime repressor que já governou seu país. Conversamos sobre a coincidência do momento das celebrações no país deles e do ano dos Jogos da Comunidade Britânica em Glasgow, e do papel da cultura em ambos. Minha colega, nossa nova diretora de projetos internacionais, fala sobre a necessidade de concentrar os investimentos. O ex-diplomata diz que ela parece um “touro sorridente” e todos rimos. Eles cantam para nós — canções de protesto. Canções lindas, fortes e enraivecidas. Pedem-nos que cantemos nossas canções. Quando começo minha pesarosa canção de protesto escocesa e minha colega do British Council se junta a mim, eles entram em harmonia conosco.

Sperantia, Cena 4

O café em um hotel na George Square, 2014, coração de Glasgow, a maior cidade da Escócia, no início do ano dos Jogos da Comunidade Britânica e das significativas celebrações de Sperantia pela fundação de sua nação livre e democrática. Uma delegação da agência nacional das artes de Sperantia e o carismático cantor que agora é co-curador das celebrações internacionais estão na cidade para contribuir com a programação cultural dos Jogos da Comunidade Britânica de 2014. No entanto, apesar de três anos de demoradas discussões e um histórico de sucesso criativo, ainda não há acordo a respeito de nenhum evento em nenhum dos festivais de Edimburgo, que no momento estão finalizando suas programações para este ano tão importante. Estou no café promovendo um encontro de “namoro a jato”, em que cada um dos representantes dos festivais de verão de Edimburgo — um total de seis curadores com suas próprias visões diferenciadas — se sentam cara a cara com cada um dos demais e debatem como podem trabalhar para identificar e celebrar os melhores artistas, companhias e obras comunitárias de Sperantia, com o curador da programação cultural internacional das celebrações de Sperantia. Esse homem, o cantor carismático, obviamente tem sua própria visão, diferenciada e ambiciosa, a respeito de como a programação deve ser. As conversas são animadas. Será que uma programação de quatro anos para o Fringe Festival, desenvolvida com todo o amor, deve ser sacrificada para permitir que outras aspirações se tornem realidade? Por que Sperantia deveria apoiar obras que não escolheu para a comemoração de seu momento especial? Quem está no comando? O que significa parceria? Será que Sperantia se destacará tanto quanto outros países em uma exposição intercomunitária que gerou colaborações entre curadores de artes visuais de cinco continentes? Tudo continua ainda dolorosamente incerto no fim do dia. Tento pensar nos artistas e canalizar a afável determinação de minha colega, “o touro sorridente”, enquanto resumo nosso potencial colaborativo coletivo.

Sperantia, Cena 5

Edimburgo em plena temporada de festivais. Agosto de 2014, o ano dos Jogos da Comunidade Britânica em Glasgow. Sperantia tem um destaque sem precedente nos festivais de Edimburgo, incluindo três importantes produções de grande escala muito aclamadas no Edinburgh International Festival, uma programação de música jovem que reuniu jovens músicos de Sperantia e da Escócia para aprender e atuar no Edinburgh Jazz and Blues Festival, diversos eventos de autor no Edinburgh International Book Festival, um curador e artistas contribuindo com uma exposição e instalações integrando a programação mais ambiciosa de todos os tempos do Edinburgh Art Festival, um grupo de dança tradicional atuando diante de oito mil pessoas por noite e para milhões de telespectadores no Royal Edinburgh Military Tattoo6 e, sim, a programação de espetáculos teatrais no Fringe Festival, reduzida, mas ainda preservada. Conseguimos! Edimburgo recebe a ambiciosa celebração da fundação de um país e de seu talento cultural, uma poderosa presença criativa que enriquece nossos festivais. É o ápice de cinco anos de trabalho, visão colaborativa, negociações complexas, o talento criativo e a força de vontade de artistas e programadores de ambos os lados. O ápice e o ponto final. Nenhuma obra de Sperantia recebeu apoio no ano seguinte nem no outro ano. O processo de pagamento aos artistas e pelas obras por parte de Sperantia foi extremamente demorado. A parceria para apoiar um intercâmbio de longo prazo entre os artistas e os projetos da Escócia e de Sperantia com o British Council e a Creative Scotland simplesmente não progrediu em Sperantia. Foi o fim. A energia e o compromisso se esgotaram em ambos os lados. Durante aquele momento, nosso momento múltiplo, o que aconteceu foi incrível. Mas, então, acabou.

PAÍS No 2 — Vamos chamá-lo de Rena

Rena, Cena 1

É o começo de agosto de 2011 e eu e minha equipe estamos na abertura do Edinburgh Art Festival na Edinburgh College of Art, seis meses depois de minha primeira visita, muito positiva, a Rena. A Festivals Edinburgh planejou ter uma pequena delegação de artistas, produtores e responsáveis pela política cultural de Rena na cidade para a nova Momentum Edinburgh Festivals International Delegate Programme, novamente em parceria com o British Council e a Creative Scotland. Continuamos a planejar como os festivais de Edimburgo, o maior evento com venda de ingressos do mundo depois dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo, podem melhorar suas relações e vínculos internacionais com artistas, patrocinadores e instituições nos preparativos para os Jogos Olímpicos de 2012 em Londres e os Jogos da Comunidade Britânica de 2014 em Glasgow. Mas, no entardecer ligeiramente tumultuado e boêmio em que ocorre o evento social após a abertura do Art Festival, acontece o inesperado: neste caso, a chegada-surpresa à cidade de um entusiasmado produtor independente e sua equipe, que, segundo ouvimos dizer, estão na cidade considerando a ideia de realizar uma grande temporada de obras de Rena — exatamente o que estamos querendo incentivar. Feliz coincidência! Tentamos ligar e mandar um email para eles, mas não sabemos ao certo se pegaram as mensagens ou nosso pedido para nos encontrarmos na festa. Ligamos novamente. Sem resposta. Acabamos recorrendo a nossos narizes para ver se conseguimos farejá-los por instinto. Com sua descontração e aparência exótica diante da palidez ligeiramente tensa dos escoceses, nós os encontramos com cervejas nas mãos, perdidos em meio à agitação — só de olhar para eles, já sabemos quem são e que já foram absorvidos pela intensidade desorientadora desta nossa cidade dos festivais. Sentimos um entendimento mútuo, profundo e caloroso desde o momento em que nos encontramos, mas mal falamos a mesma língua. Iniciamos uma conversa que durará por cinco anos, reafirmará o entendimento e escancarará os problemas de comunicação, para o prazer e a angústia de todos nós.

Rena, Cena 2

Nove meses depois, em maio de 2012. Teatro cheio, em um novo festival na cidade mais conhecida de Rena. Parece que terei de fazer o discurso inaugural do festival na língua de Rena, que acabo de começar a aprender. É uma surpresa. Após um insistente pedido de última hora, escrevo o discurso em inglês, peço que minha generosa colega do British Council o traduza e o transcreva foneticamente, e é isso que ela faz. Mastigo um significado qualquer a partir dos sons desconhecidos e, quando termino, todos aplaudem com entusiasmo. Fico aliviada e tocada, mas não entendo uma palavra do que me dizem a seguir. Seis meses antes, em uma visita a Rena, estava sentada no escritório de um grande banco com meu colega de Rena, o entusiasmado produtor independente, e o ajudei a vender a ideia toda deste festival, inspirado nos festivais de Edimburgo, a um dos mais importantes patrocinadores do país. O acordo é fechado. O destaque do novo festival são obras e oficinas internacionais apresentadas pela primeira vez no Festival Internacional de Edimburgo e o maravilhoso espetáculo de uma grande companhia teatral escocesa, apresentado no Fringe. Dou palestras sobre como levar obras a Edimburgo. Um intercâmbio genuíno começa. Nosso entusiasmado produtor está sabiamente avançando com comedimento em sua empreitada em Edimburgo, pensando cada passo de como Rena interagirá com nossa cidade dos festivais e considerando um modelo em que artistas e companhias possam, após alguns anos, aprender a interagir com o Fringe de forma independente. Um espetáculo-piloto virá a Edimburgo no ano seguinte, enquanto o produtor procura atrair apoio governamental para a grande empreitada. Enquanto estou por lá, encontro com os secretários de Cultura municipal e regional e inicio um diálogo a respeito de um intercâmbio mais formal, com a presença de ambos na Programação Cultural Olímpica de Londres. São e serão discussões paralelas. Nunca consigo fazê-los trabalhar juntos nem obter uma intervenção governamental significativa em prol dos artistas que querem interagir conosco. Quando estou indo embora de Rena, a importante companhia teatral escocesa me liga em pânico. O novo festival hospedou seus integrantes em uma região perigosa da cidade, dois em cada quarto, e quer pagá-los em dinheiro!

Rena, Cena 3

Edimburgo, 2013. Rena tem a maior delegação de artistas, produtores, curadores e responsáveis pela elaboração de políticas de nossa Momentum International Delegate Programme em agosto. Eles, e aqueles que vieram antes deles, começam a conhecer melhor as obras escocesas e britânicas, a trabalhar juntos para levá-las a seus espaços e a destacá-las — ou, em alguns casos, torná-las o ponto central de seus festivais. Alguns já estão tentando descobrir como trazer obras até nós. A poderosa obra sobre as artes e a deficiência, de artistas escoceses, também foi premiada e, com o apoio do British Council, formará parte e será destaque nas programações de Rena, que se prepara para organizar seus próprios grandes eventos. O British Council e a Creative Scotland criaram uma parceria e conseguiram investimentos para apoiar um envolvimento mais amplo e profundo dos setores culturais de Rena e da Escócia. A experiência de Edimburgo, uma pequena cidade nos limites da Europa, de afirmar sua posição como sede do evento cultural mais significativo do mundo em conjunto com o evento esportivo mais importante, a ser realizado em Londres, é compartilhada com os colegas de Rena. Enquanto isso, nosso entusiasmado produtor está em seu segundo ano no Fringe, com uma programação ambiciosa e de qualidade e um modesto apoio do governo de Rena, bem-vindo e obtido com muito esforço. Estamos maravilhados com o avanço e com suas crescentes aspirações. Um de seus espetáculos ganha um importante prêmio no Edinburgh Festival Fringe, mas, apesar de minhas tentativas de aconselhar e apoiar tanto a ele quanto a sua equipe, começam a surgir divergências, mal-entendidos a respeito do que foi acordado com possíveis espaços, o não cumprimento dos prazos de financiamento em Rena e dos prazos da programação em Edimburgo, a escolha de espaços que oferecem aos artistas um alto nível de produção, mas públicos pequenos. Ele sofre. Os artistas sofrem.

Rena, Cena 4

Um ano depois, 2014. Um membro da equipe do entusiasmado produtor está em um trem vindo de Londres com 75 mil libras em dinheiro em uma bolsa sob seus pés. Devido às leis anticorrupção de Rena, esta é a única maneira de levar a tempo para a Escócia o dinheiro necessário para cobrir os custos da ambiciosa temporada de Rena no Edinburgh Festival Fringe. Estamos com um importante líder cultural de Rena expressando seu ponto de vista no Edinburgh Culture Summit, que reúne ministros da Cultura de todas as partes do mundo durante nossos festivais. Temos o único Fringe Festival de Rena participando do Fringe Congresso global. A presença do País no 2 é profundamente sentida em Edimburgo nesse mês de agosto. A temporada, porém, quase não acontece. É preciso uma intervenção minha na Festivals Edinburgh, na embaixada de Rena em Londres e no British Council em Rena para superar a impossibilidade de transferir recursos financeiros e evitar a posterior falência de um espaço que vinha apresentando obras em Edimburgo há 30 anos — um desastre humano e de reputação para todos. Conseguir o investimento, antes de tudo, foi tortuoso. Somente alguém com o profundo compromisso e a força de vontade como o entusiasmado produtor poderia ter conseguido. A programação ganha outro importante prêmio e ficamos orgulhosos da companhia e desse homem incrível que ajudou a trazer uma obra tão potente até aqui, mas as divergências do ano anterior aumentam ainda mais e todos sofremos com um sentimento de frustração e decepção com os sistemas e as instituições de cada um. E sofremos com cada um de nós mesmos.

Rena, Cena 5

Edimburgo no ano seguinte, 2015, ano em que 50 artistas e companhias escocesas dialogaram e trabalharam com seus colegas de Rena. Damos as boas-vindas na nossa cidade dos festivais ao futuro ministro nacional da Cultura, ao secretário municipal de Cultura da cidade mais conhecida de Rena — o terceiro que recebemos em cinco anos —, além de um grupo representando seus impressionantes festivais e ao diretor da programação cultural relacionada com o importante evento esportivo internacional que Rena organizará no ano seguinte. São atendidos por mim mesmo e por nossa nova diretora de Projetos Internacionais, nascida em Rena, que desenvolveu uma paixão pelas obras escocesas em seu trabalho no British Council e em nossa Momentum International Delegate Programme. Eles assistem a alguns espetáculos e visitam exposições, mas também fazem companhia uns aos outros e se reúnem com nosso ministro da Cultura e dos Assuntos Exteriores (cuja agência de desenvolvimento econômico tem agora um escritório em Rena), com os diretores de nossos festivais e com colegas escoceses e estrangeiros, pensando e conversando em conjunto. Em plena temporada de festivais, Edimburgo é, para mim, um ponto de encontro único, em que ideias e colaborações podem ser desenvolvidas. As conversas que os representantes de Rena estão começando a ter me fazem sentir que este país pode simplesmente criar não só ótimas programações envolvendo grandes eventos — aqueles “momentos” —, mas também novas formas sustentáveis de pensar e trabalhar, um legado. Sou uma otimista. Nem todo mundo está convencido e meu otimismo tem um quê de exaustão. Apesar de que muitos relacionamentos e colaborações foram semeados ao longo dos últimos três anos, não há uma temporada de artistas e companhias de Rena em Edimburgo em 2015. O entusiasmado produtor já não voltará e está dizendo aos quatro ventos que nossos festivais não conseguirão sobreviver da maneira como funcionam atualmente. Mas sobreviverão, é claro, e se adaptarão. Infelizmente, nossas esperanças conjuntas e nossa empreitada em comum não sobreviveram à maneira como trabalhamos. Tivemos nosso momento.

PAÍS No 3 — Vamos chamá-lo de Thalia

Thalia, Cena 1

Fevereiro de 2012. Eu, o presidente de minha instituição e o diretor-executivo do Edinburgh Festival Fringe estamos na apresentação internacional de uma obra numa “cidade de festivais” semelhante, na região do Pacífico asiático. Estamos perseguindo a diretora de Trabalhos Internacionais do conselho das artes de Thalia. Ela não está nos evitando, mas também não está convencida de que a conversa que queremos ter será útil. Sua instituição e os artistas estão concentrando seus esforços em criar relacionamentos e abrir mercados em sua própria região, particularmente no Extremo Oriente. Eu e o presidente de minha instituição achamos que eles deveriam trabalhar com nossos festivais nos preparativos para os Jogos da Comunidade Britânica de 2014 em Glasgow e aproveitar a oportunidade com o objetivo de criar uma plataforma para desenvolver e promover seus artistas. Quando nos sentamos para conversar, nós a incentivamos a reafirmar os vínculos de Thalia com a Escócia e a Comunidade Britânica, a enxergar a oportunidade de desenvolver suas parcerias em idioma inglês e a compreender que Edimburgo é o maior mercado de artes do mundo, aonde todos os seus colegas da região do Pacífico asiático irão, de qualquer maneira, em busca de obras e para fazer contatos profissionais. Ela é inteligente demais para concordar com tudo, mas conseguimos entrever uma brecha em sua postura e passamos a oferecer ideias e possibilidades com determinação. Ela concorda em vir com seus colegas a Edimburgo naquele mês de agosto para explorar melhor essas ideias. Com persuasão, conseguimos fazer nascer um diálogo…

Thalia, Cena 2

Um ano e meio mais tarde em Edimburgo, agosto de 2013. A Momentum Edinburgh Festivals International Delegate Programme está recebendo uma delegação de Thalia liderada por uma ex-colega que havia trabalhado para os festivais de Edimburgo. Foi ela, aliás, quem tinha se reunido com os representantes da capital cultural coletiva de Sperantia muito antes, em 2011. Sua experiência fez a diferença. A delegação inclui o novo diretor de Trabalhos Internacionais do conselho das artes de Thalia, que, valentemente, se comprometeu a buscar projetos de grande escala, com artistas, escritores, curadores e produtores guiados por uma viagem de aprendizado com reuniões individualizadas, visitas a espaços e a oportunidade de fazer contato com os diretores de nossos festivais, além de gerentes dos locais de espetáculos do Fringe, experientes produtores de festivais e artistas e companhias escocesas. Eles exploram as possibilidades e os riscos de trazer obras a Edimburgo para nossos seis festivais, a serem realizados no fim de julho e em agosto e para outros eventos ao longo do ano. Seu conselho das artes apoia totalmente a iniciativa e estabelece seus próprios vínculos através de um ecossistema mais amplo de intercâmbio, assim como faz a equipe do British Council de Thalia. Os membros da delegação chegam com suas próprias expectativas e aspirações, mas trabalham com seu conselho nacional das artes no interesse conjunto de apresentar uma ousada temporada de obras em 2014, ano dos Jogos da Comunidade Britânica em Glasgow. Alguns estão assustados ou acham que não têm as obras adequadas ou finalizadas. Outros desenvolvem novas ideias e pensam naquilo que gostariam de fazer. Alguns plantam as sementes de uma colaboração e de um intercâmbio com a Escócia que vai além de nossos festivais. Todos aprendemos. Quando reunimos representantes do setor cultural escocês para um monumental almoço de networking com eles, ficamos paralisados quando nossos colegas de Thalia pedem silêncio à sala e se juntam em harmonia para cantar a canção nacional em seu próprio idioma. Alguns de nós choram.

Thalia, Cena 3

Agosto de 2014. Thalia arrebata Edimburgo — ao menos, é a sensação que dá. São 200 artistas de lá atuando em sete de nossos festivais, apoiados pela colaboração entre o conselho das artes, o Ministério da Cultura e Patrimônio Cultural e o Ministério do Comércio e do Empreendedorismo, com alguma ajuda da companhia aérea do país. Trazem bons vinhos e montam um bar, criando um enfoque social. O conselho das artes apoia a temporada com ampla publicidade e divulgação nos meios de comunicação — mais de 1 milhão de libras em cobertura da imprensa é gerado — e trabalha duro com a indústria das artes por meio de um envolvimento ativo, indo atrás dos mais de mil diretores, programadores e produtores de festivais internacionais presentes nos festivais de Edimburgo em busca de trabalho. Outros países e regiões parecem procurá-los em busca de conselho sobre como fazer o mesmo. Seus artistas e companhias, que prepararam o terreno e refinaram sua própria resiliência nas visitas de pesquisa anteriores, durante a Momentum International Delegate Programme, trabalham duro para vender seus espetáculos. Um dos espetáculos é um sucesso estrondoso. Duas temporadas extras completas de obras de Thalia são reservadas por outros festivais. Vão se acumulando os convites internacionais aos artistas. Mesmo antes de os festivais terminarem e os resultados serem formalmente avaliados, sabemos que a temporada foi triunfal. Eu me reúno com o presidente do conselho das artes de Thalia e seu diretor internacional e começamos a falar cautelosamente sobre outra grande temporada de obras para todos os festivais em 2017 — o ano, o momento em que Edimburgo comemorará 70 anos como uma cidade dos festivais.

Thalia, Cena 4

Fim de 2014. Uma cidade no sul de Thalia. Estou organizando um dia de conversas e oficinas com os festivais da cidade e suas agências de turismo e desenvolvimento econômico, a convite do conselho das artes de Thalia. Nós os incentivamos a desenvolver uma abordagem colaborativa para trabalhar em conjunto e construir parcerias sólidas com as partes envolvidas. É a terceira cidade de Thalia em três dias em que tento passar o que sei e desenvolver sua maneira de pensar. A palestra está sendo realizada na galeria de arte contemporânea cujo curador foi co-criador da grande exposição da Comunidade Britânica que fez parte do Edinburgh Art Festival de 2014, uma galeria cuja última exposição conta com artistas escoceses. Uma das pessoas que participa de meus eventos é um entusiasmado produtor musical que, em poucos meses, levará sua banda ao Celtic Connections, um dos poucos festivais genuinamente internacionais além dos nossos. Thalia é a atração do festival em 2015, um relacionamento que se acelerou durante nossos festivais de agosto. No início de 2014, o vereador que apresenta meu evento recebeu minha colega do British Council da Escócia na cidade e, em uma modesta, mas comovente cerimônia — filmada e exibida na rede de TV pública do país —, aceitou dela as 10 mil libras que sua família ainda devia pela passagem de navio de seu bisavô, quando ele emigrou para a cidade no século 19. Velhas dívidas foram pagas. Novas travessias começam. Dirijo o olhar a minha colega do conselho nacional das artes de Thalia, que esteve presente durante todo o processo de quatro anos, e sei que nós duas compartilhamos vínculos políticos, criativos e pessoais idênticos e quase orgânicos. Sorrimos.

Thalia, Cena 5

Junho de 2016. Nos escritórios do conselho das artes de Thalia, após uma considerável redução dos recursos para a cultura, já que a receita com a loteria nacional, que representa 50% do orçamento da instituição, cai substancialmente. Minha colega, antes sorridente, ganhou um vinco de preocupação entre as sobrancelhas que é diferente, mas não deixa de ter seus atrativos. Decisões difíceis estão sendo tomadas e as prioridades estão sendo redefinidas em tempos de austeridade. Longamente planejada, a temporada de 2017 dos festivais de Edimburgo em Thalia parece vulnerável. Não abandonada, ainda não, mas muito, muito vulnerável. Chegam as perguntas. Importa se os recursos não forem concentrados em torno de outro grande “momento” de Thalia em agosto de 2017? O que mais pode ser cultivado ou apoiado dentro de um novo conjunto de prioridades? E, se a ideia não sobreviver, o que restaria? O legado é sólido: confiança nos artistas de Thalia, um novo modelo de apresentação de obras no exterior, conhecimento e experiência em se apresentar fora do país. Os artistas ainda estão em turnê e temporadas das obras de Thalia ainda estão sendo apresentadas em outros lugares como resultado direto da temporada de 2014. Sem dúvida, criou-se uma demanda por artistas e produtores de Thalia devido às oportunidades que os festivais de Edimburgo podem oferecer. Nove companhias teatrais levam suas obras para o Fringe em 2016 e outras seis participarão da Momentum International Delegate Programme. Esperamos que os relacionamentos de longo prazo e as parcerias existentes na Escócia, no Reino Unido e internacionalmente, que só poderiam ter sido construídas entre artistas e instituições ao longo dos cinco anos de intercâmbio, sobrevivam e até mesmo evoluam. Nem tudo está perdido, mas eu e minha colega da testa franzida sabemos que aquilo que aconteceu entre os 18.269 quilômetros que separam Thalia da Escócia reajustaram nossos vínculos e mudaram a forma como nossos países veem um ao outro. Também sabemos que tudo que aconteceu nasceu a partir daquele momento em 2014. O momento agora parece insustentável. Quatro semanas mais tarde, o prêmio da loteria nacional de Thalia se acumula em 40 milhões e reanima radicalmente a venda de entradas. A sorte do conselho das artes é quase milagrosamente restabelecida e a possibilidade de uma grande temporada de Thalia nos festivais de Edimburgo ressurge. O momento está de volta, dentro do orçamento. Entre 2007 e 2015, Faith Liddell foi diretora da Festivals Edinburgh, a instituição criada pelos 12 maiores festivais de Edimburgo para dirigir seu desenvolvimento estratégico conjunto e trabalhar de forma colaborativa para assegurar que a cidade conserve sua condição de principal cidade dos festivais do mundo. Entre 2010 e 2015, ela e sua equipe trabalharam com todos os 12 festivais e com as agências e parceiros governamentais da Escócia e do Reino Unido para aprofundar e criar parcerias com artistas, produtores, instituições, agências de criação e de financiamento e governos em 15 países e em diversas redes. O objetivo era garantir que os festivais de Edimburgo — e, mais amplamente, o setor cultural escocês — fossem aprimorados e não debilitados, e que seu renome e seu internacionalismo se expandissem com o advento de dois dos mais importantes eventos esportivos do mundo — os Jogos Olímpicos de 2012 em Londres e os Jogos da Comunidade Britânica de 2014 em Glasgow —, realizados no mesmo país e ao mesmo tempo em que o pico da temporada de verão dos festivais de Edimburgo.