Durante a segunda reunião do Conselho Consultivo do Brasil, os conselheiros tiveram uma prévia do que seria realizado no I Seminário Internacional da pesquisa A Arte do Intercâmbio Cultural, realizado em Londres, em junho de 2015. Formado por profissionais de várias áreas, o Conselho tem papel fundamental no desenvolvimento da pesquisa.  A ele cabe apreciar as etapas de trabalho, contribuindo com avaliações, sugestões, críticas, ponderações sobre o processo da pesquisa, bem como os resultados alcançados a cada etapa. Além do Seminário, dois outros temas se destacaram na pauta: a realização do mapeamento dos intercâmbios culturais, incluindo suas estratégias de disseminação, e o início dos estudos de caso.

“Há duas vertentes no mapeamento: depois de mapear, vamos fazer uma paisagem dos intercâmbios culturais, que será um work in progress, publicado no site, onde será possível visualizar as áreas do Brasil e do Reino Unido que fazem intercâmbio e as características dos projetos. É um panorama”, explicou Ilana Strozenberg, responsável pela pesquisa, ao lado de Paul Heritage. Por sugestão dos conselheiros, foi incluído um campo a mais no formulário de pesquisa, para que fosse indicado se o projeto mantém intercâmbio com outros países além do Reino Unido. “Nessa etapa, acredito que o melhor seja ampliar bem este panorama, com o máximo de informações possível”, ponderou a conselheira Silvia Ramos. Adriana Rattes, também integrante do conselho, discutiu a possibilidade de ampliar o conhecimento sobre o assunto. “Para compor o panorama, que é objetivo do projeto, seria importante ver como se dá essa troca do Brasil com outros países”. Heloisa Buarque de Hollanda destacou que é bom ter outros países em perspectiva, mas, neste momento, “é bom focar em apenas um intercâmbio, desenvolvendo a metodologia, como um projeto piloto”.

Paul Heritage – esclareceu: os recursos da pesquisa, financiada pelo Arts Humanities Research Council – AHRC, incluem apenas a relação Brasil e Reino Unido. “Mas concordo que seria importante a comparação. E acredito que os mecanismos que estamos usando funcionem muito bem para outros países também. Os resultados podem fortalecer a própria pesquisa que estamos fazendo”.

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Raquel Roldanus-Dias, da equipe do People’s Palace Brazil, e os conselheiros Damian Platt e Silvia Ramos

O que é intercâmbio?

Uma questão importante foi colocada por Damian Platt, no início da reunião: “qual é a definição de intercâmbio?”. “Para mim não tem pergunta mais fundamental na pesquisa do que essa”, respondeu Paul Heritage, esclarecendo que, para fins da pesquisa, intercâmbio cultural envolve “ao menos a troca de conhecimento”. “Cada projeto tem uma forma diferente de fazer intercâmbio. Estamos interessados não apenas no conteúdo das ações, mas também na troca de metodologia”, apontou Paul. “Essa é uma das questões da pesquisa de campo nos estudos de caso. Perguntamos sempre ao entrevistado o que significa intercâmbio para ele, o que se estabelece como diálogo nas experiências. Não queremos apenas descrever o que está acontecendo, mas fazer uma reflexão em torno”, completou Ilana.

“O mapeamento é abrangente e os estudos de caso podem entrar nos recortes, aprofundando questões específicas”, pontuou Lucimara Letelier, também conselheira. As informações sobre o mapeamento vão ser aprofundadas nos estudos de caso – alguns deles já iniciados, como Imagem e Território. “Estamos interessados em perceber como este grande conhecimento dos fotógrafos do Imagens do Povo, do Observatório de Favelas, que tem uma reflexão importante sobre território, vai atuar num Housing Estate de Londres, que é, como chamam, um cold spot, um lugar onde não tem nenhuma atividade cultural, onde a comunidade não produz nada neste sentido, diferente da Maré. Tomara que esse estudo de casa seja bom para os ingleses verem como isso acontece e os brasileiros percebam o valor desse processo”, resumiu Paul Heritage, referindo-se à temporada de cinco semanas que o fotógrafo AF Rodrigues passou em Becontree, em abril de 2015, e que foi acompanhada pela equipe da pesquisa.

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Ilana Strozenberg, Paul Heritage, Ana Claudia Souza e Teresa Guilhon, da equipe da pesquisa

Estudos de caso

Também foram apresentados resumos de outros dois estudos de caso: Imagem e Território, e Shakespeare. “No primeiro caso, o território é bastante importante e há também uma perspectiva autoral, sobre criação, diálogo e experiência, amarrada na subjetividade e no olhar de cada um dos fotógrafos, Ratão Diniz e AF Rodrigues, que teve a experiência de intercâmbio com Londres. O segundo caso, Música e Metodologia, é bastante diferente: um projeto coletivo, na área de música, entre duas instituições organizadas, com vários polos de atuação, e sediado em São Paulo, que é diferente do Rio. O terceiro, Shakespeare, a questão da tradução e da língua são fundamentais. Estamos buscando a diversidade dos estudos de caso e há toda uma construção para fazer a pesquisa, adotando uma metodologia de base etnográfica”, explicou Ilana aos conselheiros.

Eliana Souza e Silva acrescentou a importância de acrescentar entre os entrevistados algum dos diretores do Observatório de Favelas, uma vez que o “Imagens do Povo materializa um eixo de trabalho do OF, que é o da comunicação, com a fotografia sendo essencial para trabalhar os conceitos da favela”. Marta Porto sugeriu que o estudo de caso sobre Shakespeare incluísse, além do Nós do Morro, outras companhias brasileiras que trabalhassem com o repertório de Shakespeare, como o Grupo Galpão, de Minas Gerais, que durante 25 anos fez intercâmbio com a Royal Shakespeare Company.

Paul Heritage também apresentou o estudo de caso sobre o intercâmbio “mais radical” da pesquisa: “um ator super conceituado no mundo fazendo trabalho numa pequena vila na Amazônia e um artista de uma tribo indígena brasileira indo para Londres fazer sua pesquisa”, disse, referindo-se ao cineasta indigna Takuma Kuikuro, que realizou o filme Londres como uma Aldeia, durante uma temporada de residência artística na capital inglesa, e o ator inglês Simon McBurney, que desenvolve um projeto sobre os índios mayoruna, no Brasil.

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As conselheiras Eliana Souza e Silva, Marta Porto, Heloisa Buarque de Hollanda e Eliane Costa

O Seminário

Na reunião, também foram apresentados o site – lançado no dia do Seminário, a 10 de junho –, a marca da pesquisa – criada pelo artista visual Heleno Bernardi, que se inspirou nas cores das bandeiras da Inglaterra e do Brasil para compor o logotipo, comunicando a interação promovida pela pesquisa – e  a programação completa do Seminário, que teve a participação de uma das conselheiras, Eliane Costa, como provocadora. “O Seminário em Londres vai apresentar a pesquisa e o do Rio, em novembro de 2016, pós-Olimpíadas, vai ser um momento importante para refletir sobre os quatro anos de intercâmbio entre Londres e Rio, no período entre os jogos olímpicos”, explicou Paul, ressaltando a participação dos mediadores e dos provocadores convidados. Eliane Costa, uma das provocadoras, fez um resumo de sua apresentação no Seminário, que faz parte da pesquisa de doutorado que faz no HCTE/UFRJ. “Comecei essa pesquisa em 2014 sobre práticas culturais que se desenvolvem ou se expandem no ciberespaço, a partir da ótica do território como espaço vivido, chamando atenção para essa discussão que mais recentemente vem se dando sobre mobilidade da rede e novos paradigmas de território”.

Realizada duas vezes por ano, a próxima reunião do Conselho Consultivo está marcada para o início de outubro, com participação de Katherine Zeserson, que também esteve presente no Seminário em Londres. Ex-diretora do Sage Gateshead, ela estará acompanhada por Giuliana Frozoni, gestora do Projeto Guri Santa Marcelina, para falar sobre a experiência de intercâmbio entre as duas instituições, objeto de estudo da pesquisa.

Integram o Conselho Consultivo Brasileiro da pesquisa: Adriana Rattes, Anabela Paiva, Binho Cultura, Damian Platt, Dudu de Morro Agudo, Eliana Sousa Silva, Eliane Costa, Heloisa Buarque de Holanda, Junior Perim, Liv Sovik, Lucimara Letelier, Marta Porto, Ronaldo Lemos, e Silvia Ramos.

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Saiba como foi a primeira reunião do Conselho Consultivo Brasileiro