Profissionais com experiência, formação e atuação diversas integram o Conselho Consultivo Brasileiro da pesquisa Experiência e Tradução: A arte do Intercâmbio Cultural, que também conta com um corpo de conselheiros no Reino Unido. A formação plural foi um dos critérios levados em conta para convidar os participantes, que se reuniram pela primeira vez no fim de novembro de 2014 para discutir os objetivos e as reflexões propostas pelo projeto, que quer investigar as relações de intercâmbio artístico e cultural que acontecem entre o Brasil e o Reino Unido, investigando especialmente o período entre 2012 e 2016, que separa a realização das Olimpíadas em Londres e no Rio de Janeiro.

Reunidos na sede d’O Instituto, um dos apoiadores da pesquisa realizada pelo People’s Palace Project, da Queen Mary University, de Londres, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, os conselheiros brasileiros foram além da análise das propostas levantadas pelo projeto, liderado pelos professores Paul Heritage e Ilana Strozenberg. Os conselheiros, que terão encontros regulares ao longo da pesquisa, recomendaram que, além do que está previsto na proposta original, como o Mapeamento, Estudos de Caso e dois Seminários (um em Londres e outro no Rio), seja feita ao final da pesquisa, em 2016, um documento com recomendações para o Governo Brasileiro, acerca das questões que dizem respeito à política pública das artes no Brasil, e que certamente serão abordadas ao longo deste processo.

“A pesquisa pode chegar até a incidência sobre a política pública ao mostrar como algumas experiências de intercâmbio, nesse ambiente de troca globalizada, se efetivam dentro daquilo que se está construindo no campo da cultura no Brasil, numa relação com a Inglaterra ou outros países. Nosso interesse maior é fazer e aprofundar essa discussão e construir uma agenda com o que pode de fato ser potencializado do ponto de vista da política pública”, pontuou Eliana Souza e Silva, da Redes da Maré, traduzindo uma percepção compartilhada pelos demais conselheiros (conheça todos os Conselheiros aqui), como Marta Porto, Junior Perim e Lucimara Letelier, entre outros.

“Essa pesquisa pode ajudar somente no ato de olhar: como o estado e as instituições olham para o intercâmbio e como eles pensam nesse tema”, pontuou Paul Heritage, que há mais de 20 anos estuda e promove a aproximação de iniciativas artísticas entre Brasil e Inglaterra. “Os intercâmbios culturais pertencem, parece, a alguns grupos. E essa foi uma inspirações para esta pesquisa atual”, explicou Paul, dialogando com o conselheiro Dudu do Morro Agudo, que ressaltou a falta de parceria internacional dos projetos realizados na Baixada Fluminense. Dudu classifica o intercâmbio como um “choque cultural”.

Com experiência de circulação e intercâmbio com países da América Latina e Europa, sobretudo França, Junior Perim, do Circo Crescer e Viver, levantou a discussão sobre “o que é periférico em arte?”. “É a produção de território simbólico que constrói novas periferias ou desenvolve novas centralidades”, afirmou Perim, para quem “nos últimos 15 anos, no Brasil fala-se muito de cultura na periferia e pouco de arte na periferia”. “Nós, do ponto de vista da intervenção artística, do uso da arte como ferramenta para fazer intervenção social, avançamos tanto que deixamos de olhar para o fato que a gente trabalha com linguagens artísticas e não se responsabilizou por uma qualificação estética. E aí a gente perde para a Europa. Lá, onde a produção já se esgotou, eles querem a experiência brasileira. Mas quando olham como elemento estético, de representação, veem muitas fragilidades. Então, um projeto de intercâmbio só pode servir para duas coisas: permitir que a Europa, ou a Inglaterra, se aproprie da expertise das experiências brasileiras que atuam com arte e intervenção/transformação social, que é boa pra caramba, embora mal refletida, metodologizada e sistematizada, e contribuir para que a gente qualifique esteticamente nossos processos”, refletiu.

Troca de experiências

Entender como o Brasil e Inglaterra se veem é fundamental e, para isso, é preciso entender a história de relação dos dois países e, principalmente, das duas cidades – Londres e Rio. Esta foi uma questão que emergiu das falas de Damian Pratt, Lucimara Letelier e Silvia Ramos, entre outros conselheiros. “O que o estudo pode revelar? O que acontece depois do intercâmbio? Onde estão os desafios e as linhas de aprimoramento para que exista um trabalho consistente? O maior desafio é a institucionalidade”, ponderou Lucimara Letelier, que trouxe o ponto de vista da agência de fomento estrangeira, que enfrenta desafios estruturais na relação com os projetos brasileiros e os parceiros internacionais – fragilidades que, muitas vezes, não permitem que a experiência vivida se fundamente depois. Sobre as dificuldades enfrentadas na experiência de intercâmbio, Damian Pratt também ressaltou que, para os intercâmbios funcionarem melhor, especialmente com jovens, há que se prestar atenção na formação deles e ter clareza de qual é o valor do intercâmbio para os participantes a longo prazo.

Para compreender melhor a relação de intercâmbio cultural com a Inglaterra e o Reino Unido, antes muito focada na questão social, é preciso levar em conta a mudança econômica e social pela qual os países da Europa vêm passando. “O Reino Unido hoje passa por uma crise em diversas frentes, ao passo que o Brasil sempre esteve nessa crise que eles localizam lá, agora. Com isso, temos uma troca nesse momento beneficiada, que é importante para eles, e pode colaborar com a definição de politica pública deles”, disse Lucimara. Nesse novo contexto, a questão social no Reino Unido tornou-se uma latente e relevante. “A construção que se fez aqui é muito importante pra eles. Historicamente estamos muito desenvolvidos nessa área. Enquanto eles institucionalmente estão muito desenvolvidos”, completou.

Silvia Ramos insistiu na perspectiva histórica para esse levantamento. “Um produto interessante desse projeto seria um paper demonstrando o que aconteceu dos anos 40 ou 50 até hoje do ponto de vista dos intercâmbios entre esses países. Que Inglaterra quis se mostrar para o Brasil e que Brasil se mostrou na Inglaterra, com apoio oficial?”, indagou. “Uma hipótese que tenho, que pode estar errada, é que vai ser possível ver uma guinada a partir dos anos 90 para o mundo da periferia. O Brasil que não queria se mostrar lá fora passa a ser mostrado”, acredita. A importância desse mergulho histórico é entender se havia, ou não, alguma linha política ou ideológica nos intercâmbios, relacionada ao que seria mostrado no exterior”, concluiu.

Tradução: uma questão

Heloisa Buarque de Hollanda lembrou que o projeto tem que voltar a uma pergunta, “que é muito linda”: o que é traduzir? “É preciso ter uma clareza politica grande: o que a gente quer, onde quer chegar?”, ressaltou Heloisa, para quem o tema da tradução “é de uma complexidade absurda e fascinante”. Para Paul Heritage, a tradução está em primeiro plano. “Que Brasil se traduz e também que Inglaterra se traduz”, resumiu. Os eixos da pesquisa são a arte e a organização cultural, compreendendo como o Brasil organiza arte e cultura, incluindo a troca de metodologia.

A fala de Heloisa inspirou Binho Cultura, que resumiu: “Tudo isso aqui pra mim foi tradução”. Para ele, o contato de partes diferentes da cidade, trocando experiência sobre sua atuação, dificuldades, estrutura, são um intercâmbio poderoso. “Melhor que fazer intercâmbio com o Reino Unido é fazer um intercâmbio entre nós mesmos. A gente está falando de um Rio de Janeiro que não se conhece”. “Você consegue se traduzir quando interage com outros, com outras culturas”, complementou Ilana Strozenberg. .

Referindo a Dudu de Morro Agudo, Binho contou que eles criaram a conexão Baixada-Zona Oeste. E que em ambos os lados enfrentam a dificuldade da circulação e, muitas vezes, da compreensão das pessoas que querem que participem das ações. “As pessoas muitas vezes se colocam como periferia em todos os sentidos. Muita gente não se permite dialogar – com a universidade, com o gringo, com políticos. Nós precisamos parar de pregar pros convertidos. Quando a gente consegue compreender isso, a gente começa a dialogar com todo mundo. Eu quero conhecer as pessoas que são referência pra mim”, disse. E completou: “essa tradução maior é traduzir a si mesmo: a nossa visão de mundo, qual minha importância na sociedade, o que eu vim fazer aqui”, disse Binho, ressaltando que a influência inglesa na Zona Oeste é forte e remonta à época áurea da Fábrica de Tecidos Bangu, que patrocinava um clube, um time de futebol e concurso de miss na região. “Toda vida social e cultural veio pela indústria têxtil, que era de origem britânica, a Fábrica Bangu, que foi uma referência nacional”, pontuou Binho.

Para os conselheiros, a pesquisa The Art of Cultural Exchange/A Arte do Intercâmbio pode contribuir em relação à institucionalização dos programas de intercâmbio no Brasil, ainda muito dependentes de organizações internacionais; ao aprimoramento estético das experiências brasileiras na periferia que usam a arte como ferramenta de ação; à construção de políticas públicas que garantam programas mais duradouros e perenes acerca dos intercâmbios culturais, com consequências mais densas para ambos os lados; à transformação em método da forma de atuação em que o Brasil tem grande expertise, que é usar a arte como ferramenta de ação e intervenção social; à desconstrução do discurso e da prática da “inclusão social”, mais condescendente com as fragilidades artísticas das experiências da “periferia”; ao aprofundamento de conceitos como “território” e “periferia”; ao conhecimento do histórico sobre a relação de intercâmbio cultural existente entre Brasil e Reino Unido.

Marta Porto ressaltou que o documento base do projeto The Art of Cultural Exchange/A Arte do Intercâmbio Cultural é “ambicioso”, trazendo uma proposta que caminha em duas direções: política e artística/estética. “O intercâmbio age sobre essas duas áreas, tanto para impactar determinada política setorial como sobre a experiência”, resumiu. Para ela, os dois olhares têm dimensões distintas e “o que a gente tem visto muito são conexões que não fazem intercâmbio”.

As questões levantadas pelos Conselheiros serão aprofundadas ao longo do desenvolvimento da pesquisa, sendo tratadas durante os Estudos de Caso, o Mapeamento e os Seminários, para os quais serão convidados pensadores de diversas áreas para apresentar reflexões e provocações relacionadas aos temas abordados neste estudo. Integram o Conselho Consultivo Brasileiro da pesquisa: Adriana Rattes, Anabela Paiva, Binho Cultura, Damian Platt, Dudu de Morro Agudo, Eliana Sousa Silva, Eliane Costa, Heloisa Buarque de Holanda, Junior Perim, Liv Sovik, Lucimara Letelier, Marta Porto, Ronaldo Lemos, e Silvia Ramos.